quinta-feira, setembro 07, 2006

O Sexo e o Amor


Hoje recordei os tempos em que fui apresentado ao Amor. Estava na adolescência, deveria ter uns 16 anos, e fiquei deveras impressionado com ele. Devo dizer até que fiquei fascinado com todas as sensações novas que descobria e tal era a minha satisfação que suspirava literalmente quando na ausência do meu objecto de devoção. O Amor pareceu-me o que de melhor existia no mundo, mas não demorei muito a desiludir-me e a consciencializar-me de que as aparências iludem. O amor não é nada daquilo que aparenta ser à primeira vista. Começam os ciúmes, começa a tortura da dificuldade da correspondência sentimental... 279 paixões depois tornei a cruzar-me com o Amor, cerca de dez anos depois, e tornei a confiar nele. Entreguei-me novamente de corpo de alma (utilizando uma expressão banal conhecida por todos), tornei a confiar e não é que fui traído? Sim, sim, fui trocado por outro. Bem, pensei, não torno mais a confiar neste sentimento! Que se lixe o Amor! A zanga assumiu tais proporções que fui procurar a amizade do Sexo. O Sexo pelo menos não engana ninguém, é o que diz ser, não promete nada, apenas prazer. E haverá coisa melhor que o prazer? Naaaaaaaaaaa! Deambulando de corpo em corpo, sentindo-me independente, algo me deixava insatisfeito. Sentia saudades do Amor e o divertido Sexo parecia ter deixado de me seduzir. A graça inicial perdera-se. Tentei então procurar o Amor novamente. Fiz chamadas telefónicas, enviei faxes, mails... Fiz de tudo para tornar a encontrá-lo, mas ele nada... Não respondeu aos meus recados, não queria nada comigo. Desiludio-o, pensei. Numa conversa de café, disseram-me que é habitual o Sexo e o Amor andarem juntos. A sério? Indaguei surpreso. Ainda não sabias? Responderam-me. Fiquei sem perceber. Hum... Pois, então deverá ser isso! Eles andas os dois e eu sem saber nada! Sou um idiota, fui manipulado pelos dois e eles devem estar a gargalhar às minhas custas. Pois, muito bem, a minha vigança será implacável. De hoje em diante, nada mais quererei nem com um, nem com o outro. Dias de profundo vazio se seguiram, a insanidade aproximava-se, o corpo exigia uma tomada de posição e eu, tomado pelo orgulho, dizia que não. Naaaaaaaaaaa! Esses dois não tornarão a passar-me a perna! Cretinos! Não preciso de vocês para nada! Mas como se vive sem Sexo e sem Amor? Bom, os padres e as freiras conseguem. Quer dizer... Nem todos! E agora, como é que resolvo isto? Terei de humilhar-me perante os dois? O meu corpo insistia a dizer que sim, a minha consciência dizia-me um não peremptório. Que diabo! Mas que situação mais incómoda! Que maçada! Recordei então as palavras de uma pessoa amiga: "Quando não sabes o que fazer, não faças nada... Deixa que a vida decida por ti...". E foi o que fiz.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A eloquência de quem sonha com os olhos abertos


Hoje é o meu primeiro dia de regresso à realidade, à vida rotineira que tantos lamentam, ora por terem, ou pelo inverso. Enquanto olhava para a paisagem, através da janela do comboio, várias reflexões surgiram sobre a total incapacidade de sermos coerentes. Refiro-me, pois, à necessidade constante de nos queixarmos de tudo como se nada nos conseguisse satisfazer. Como se todos os sonhos só tivessem importância até ao momento em que fossem concretizados, pois a partir do instante em que o são, pouco se perde a sentir o prazer da vitória, pois os tempos actuais obrigam-nos a ter inumeráveis ambições e projectos, dado o nosso estado miserável de infelicidade. Preocupa-me o pessimismo tão frequente actualmente. Preocupa-me conhecer tantas pessoas com depressões. Preocupa-me descobrir que afinal as causas não são assim tão importantes. E o que é, então, salutar e deveras fundamental para a nossa felicidade e realização pessoal? Sonhar de olhos abertos? Fugir constantemente do real, do palpável, como se fugíssemos do que provoca a dor e buscássemos no utópico e inatingível uma verdadeira sensação de prazer? Será por isso que sou monárquico? Bom, dada a complexidade da causa e do movimento, qualquer justificação será redutora. Mas isso será dito num outro texto. A mensagem deste é apenas esta: a depressão é uma perda de tempo, porque independemente do que quer que nos tenha acontecido, a verdade é que todo o Universo continua em funcionamento como uma grande máquina. E essa é única verdade absoluta que conheço. Dadas as felizes circunstâncias de existirmos, só nos resta estar gratos por isso, não perder tempo com disparartes e fazer algo de inequivocamente útil e de olhos abertos.

sábado, setembro 02, 2006

A Inércia


Com o calor intenso que se faz sentir por todo o país, obrigando qualquer um a usar roupas leves e a recorrer às tecnologias para que as noites sejam passadas com tranquilidade, é considerado normal que a inércia se apodere não só dos corpos, como também das mentes. Assim, somos levados a estados de langor que se arrastam impiedosamente até a estados de ignorância. O Verão continua a reinar, lembrando o Rei que um dia teve pretenções de ser o Sol. O Deus inatingível de todos os franceses que em muito inspirou outros monarcas pela Europa fora. Era um homem que nada fazia e até era disputado o cargo para lhe limparem o rabinho... Ora bem, lá está a explicação. A bizarra ligação que existe entre o Sol e a Inércia. A estrela que provoca toda uma agitação frenética na Via Láctea, tem o efeito devastador e antagónico de provocar no mais nobre dos homens um sentimento de inactividade. Repare-se que os planetas nunca param, agora temos menos até. São apenas oito. Bom, sempre fica mais fácil para as novas gerações memorizarem. Para quê dificultar a vida aos piquenos? Os pais agradecem, pois sentem sempre dificuldade em responder às questões dos filhos, desculpando-se com: "No meu tempo não ensinavam isso...". Mentirosos! É a inércia que os domina e depois desculpam-se com o calor...